Ser Mulher.

Era o mais sorridente de todos. Parecia ouvi-la com os olhos, enquanto transbordava simpatia e educação. Todos o conheciam e respeitavam bastante. Ela achou que sim, ele seria tudo isso e muito mais, por certo.

Houve um dia, que passaram a ser vários, em que, assim que essas pessoas que tanto o respeitavam, e que gentilmente retribuía, viravam costas e eram apelidadas de tudo e mais ainda. Tudo o que supostamente eram defeitos ou erros cometidos por aquelas pessoas, jorravam da boca de quem há pouco lhes sorrira e acenara educadamente. Ela acreditou que ele lhe confiava os mais íntimos dos seus pensamentos. Não conseguia ver mais nada senão que a relação avançava de forma mais cúmplice... mas pérfida, percebia anos depois. O que de tudo ele acusava meia cidade passou a acusá-la também. Inicialmente, de forma camuflada num simples amuo de horas. Passaram os amuos para darem origem às feias palavras que faziam dela tudo menos uma Mulher. Sem dar pelo tempo passar, ela já acreditava ser feia, estranha, desinteressante, aborrecida, atabalhoada, tudo o que de menos bom se pretendia numa companheira de vida.

Estes defeitos todos deram lugar a que, sempre que um homem a visse, para quem ela não se tivesse transformado em transparência, seria certamente sua única culpa. Devia manter-se transparente e se permitiu que a vissem estava a ser desleal. Tornava-se, assim, pior pessoa e cada vez menos mulher. Enquanto isto, ele manipulava as cordas que lhe amarrara aos pulsos e brincava de bicho papão. Tão papão que tudo papava. As outras e as suas entranhas.

Chegou o dia em que o seu sorriso se tornara inexistente, a sua disponibilidade ausente, a sua simpatia e educação, uma utopia. Todos os outros continuavam a "conhece-lo" e respeitá-lo como sempre. Ela temia-o. Temia principalmente perdê-lo, porque mesmo sendo mau e ela tão pouco, como se sentia, ainda era ele que lhe dizia gostar dela.

Os momentos de partir tudo o que os rodeava, quando ela lhe provocava "impaciência", foram aguentados com a esperança de que, numa qualquer manhã ou noite, se desvanecessem e tudo ficasse calmo. Não só não aconteceu como os alvos deixaram de ser as paredes, o carro, as cadeiras. Ela passara a ser o seu único alvo. A culpa deixara de ser da "impaciência" para passar a ser do "nervosismo", sendo qualquer palavra que proferisse o epicentro de tais tempestades.

Ela teve sorte, muita sorte. A sorte chegou no dia em que percebeu ser mais do que saco de pancada de um infeliz.

Virou costas, sentiu toda a pena do mundo por si própria, chorou o dia em que acreditou, desligou o telefone, fechou-se em casa, até que por fim ele se esqueceu dela. A única transparência que ansiava e merecia aconteceu. E nesse dia, completamente devastada, percebeu que nada mais fazia sentido que rasgar o seu sorriso, espelho da sua alma, por ser livre. De joelhos no chão, jurou um dia erguer-se e essa luta fez dela a pessoa que sempre foi: Mulher.

Ilustração: Devon Smith.